Um retorno ao Piauí, um documento de 1758 e um filme que faz o passado respirar dentro do Mix Brasil

Arrenego abre uma fenda entre passado e presente ao revisitar, com delicadeza e tensão, um documento de 1758 que narra um suposto Sabá de Bruxas no Piauí. O retorno de Naywá Moura Carvalho Oeiras, sua cidade-natal, conduz o longa por um caminho de memória, performance e disputa simbólica. Misturando encenação e realidade, o filme dirigido por Fernando Weller e Alan Oliveira investiga como as feridas da colonização seguem sangrando nas relações de gênero, raça e poder no Brasil. Produzido pela Jaraguá Produções, em coprodução com a Pesado Filmes, Arrenego tem estreia mundial no 33º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, dentro da mostra Reframe, com sessão nesta sexta (14) , às 17h, no IMS-SP, com nova exibição em 22 de novembro, às 17h15, na SPcine Olido. O filme pode ser visto gratuitamente aqui.

Que tal dar um vislumbre do que é o plot do filme? Em Oeiras, atores e moradores da cidade são convidados a reler e encenar o documento colonial que descreve o tal sabá. O gesto, mais performativo que ilustrativo, reacende discussões sobre como violências antigas – especialmente contra mulheres e corpos dissidentes – ecoam ainda hoje.
“A riqueza de detalhes daquelas descrições e o modo como falavam de mulheres, corpos e fé me atravessou como uma flecha”, conta Naywá, que assina a direção de arte, o figurino e a corroteirização.

A pesquisa se cruza com o trabalho do antropólogo e historiador Luiz Mott, pioneiro nos estudos sobre religiosidade e dissidências no Brasil colonial e que também está presente no filme. No artigo Transgressões na Calada da Noite: um Sabá de Feiticeiras e Demônios no Piauí Colonial, Mott revisita o caso de duas mulheres, registrado em 1758, no qual elas foram acusadas de práticas heréticas e rituais noturnos. A partir desse documento, Arrenego pensa o Brasil atual.
O processo, conta Naywá, foi também espiritual. “Os corpos articulados em cena vibraram o que aquele território nos inspirou e orquestrou, como um ritual”, afirma. Para ela, o filme é um movimento de resistência: “Nosso gesto era o de dissipar a névoa ciscolonial, racista e machista que ainda tenta nos sufocar.”
Invenção – Para o diretor Fernando Weller, Arrenego nasceu de um fascínio seu antigo pelo imaginário da bruxaria no Brasil. A história do sabá de Oeiras, apresentada pela historiadora Carolina Rocha, foi o ponto de partida. Mas o encontro com Naywá mudou tudo. “A relação dela com a cidade virou o coração do filme, uma forma de reencenar o passado a partir de quem carrega, no corpo, as marcas do presente.”

Alan Oliveira, codiretor, descreve o processo como uma criação coletiva. “Transformar um documento de 1758 em cinema era o maior desafio”, diz. A equipe levou o projeto para Oeiras e experimentou como aquela memória ainda respirava nas ruas, nas vozes, na paisagem. Daí nasceu a mistura entre teatro, pesquisa e fabulação que molda o filme.
O resultado não tenta reconstruir o passado, mas convocá-lo, permitindo que ele assombre, questione e invente novos caminhos para olhar o Brasil de hoje.
Percursos – Fernando Weller é documentarista e pesquisador, com trajetória voltada a cinema, memória e política. Dirigiu Língua Mãe(2010) e Em Nome da América (2017), vencedor de Melhor Documentário Brasileiro na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em 2024, concluiu, ao lado de Wilfred Gadêlha (nota do editor: eu mesmo) a série Nova Cuba – O Nordeste Brasileiro em Dois Tempos.
O pernambucano Alan Oliveira vive no Uruguai desde 2017 e dirigiu Fé Sem Nome (2008) e Di Melo – O Imorrível (2011), vencedor do Prêmio Aquisição Canal Brasil e do Troféu ABD.
Naywá Moura Carvalho é artista visual, figurinista e diretora de arte, formada em publicidade e mestranda na UFPE. Sua pesquisa cruza corpo, ancestralidade e memória. Em Arrenego, assina direção de arte, figurino, roteiro e aparece em cena.
Fotos: Samuel Márlio
Ficha técnica

Direção: Fernando Weller e Alan Oliveira
Roteiro: Fernando Weller, Alan Oliveira e Naywá Moura Carvalho
Produção: Luiz Barbosa e Carol Ferreira (Jaraguá Produções)
Coprodução: Pesado Filmes
Direção de Fotografia: Raphael Malta Clasen
Montagem: Caio Z
Direção de Arte e Figurino: Naywá Moura Carvalho
Som Direto e Trilha Original: Danilo Carvalho
Color Grading: Raphael Malta Clasen
Desenho de Som e Mixagem: Danilo Carvalho / Fábrica Estúdios
Elenco: Adalberon Mendes da Silva, Amanda Moraes, Franciana Ferraz Viana, Junior Viana, Karolaye Janayna Ventura de Abreu, Meirilane Viana Meireles, Victor Gabriel Santos da Silva, Yanna Pacheco e Naywá Moura Carvalho
Serviço
Arrenego – Estreia mundial
33º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade
Mostra: Reframe
14 de novembro (sexta) – 17h – IMS-SP sessão com presença de Fernando Weller, Alan Oliveira e Naywá Moura Carvalho
22 de novembro (sábado) – 17h15 – Spcine Olido
Classificação: 14 anos















